A viagem mais radical

A viagem mais radical

A viagem sem bilhete de volta

Sobre liberdade feminina, despedidas necessárias e a coragem de não voltar atrás. Nem toda despedida é perda. Algumas são sobrevivência.

Mickalene Thomas, Din avec la main dans le miroir et jupe rouge, 2023

A maior viagem é sempre para dentro

Não foi uma viagem comum. Não tinha aeroporto, malas nem carimbo no passaporte. Ainda assim, foi a mais longa, intensa e transformadora de todas. O encerramento de 2025 marca o fim de um ciclo e o início de uma travessia sem retorno: a viagem para dentro de mim.

Viajar para dentro exige coragem. É olhar sem anestesia para as próprias escolhas, para as relações que mantemos por hábito, medo ou nostalgia. É perguntar, sem rodeios: o que ainda faz sentido? E talvez mais difícil: quem ainda faz sentido?

Quando a nostalgia já não sustenta a relação

Este ano me ensinou que amadurecer também é aprender a esvaziar a mesa. Nem todo mundo que caminhou conosco por anos precisa continuar sentando ao nosso lado.

Há mulheres que não entendem a nossa luta. Mulheres que minimizam o impacto do machismo e do patriarcado na nossa rotina, que tratam nossas dores como exagero, nossa indignação como excesso. E isso dói — especialmente quando essas mulheres fazem parte da nossa história.

A amiga de infância. A confidente da adolescência. Aquela que esteve presente por anos, mas que hoje se mostra distante demais da nossa visão de mundo. As conversas já não fluem, os silêncios pesam, as trocas se tornam impossíveis.

A raiva como projeção

Em 2025, fiz uma escolha consciente: me afastar dessas relações. Sem brigas. Sem ressentimentos. Mas com clareza. Não há mais espaço, na minha vida, para relações rasas, pouco empáticas, mantidas apenas pela memória do que um dia fomos.

Confesso minha impaciência com mulheres que tiveram acesso à educação, viajaram, leram, tiveram oportunidades — e ainda assim permanecem submissas, encolhidas e, muitas vezes, raivosas. Raivosas porque ver uma mulher livre confronta escolhas que nunca tiveram coragem de questionar.

Minha terapeuta disse algo que ficou comigo: a raiva destilada em lugares de ampla propagação, como as redes sociais, muitas vezes é projeção da frustração que essas mulheres não conseguem encarar. Olhar no espelho é a viagem mais difícil que existe. Fugir é mais fácil, mas cobra um preço alto.

As mentiras que aprendemos a chamar de normal

Todas nós já vivemos alguma mentira. A família perfeita. Os jantares cheios de sorrisos falsos. As mesas onde mulheres se calam para manter a harmonia masculina.

Quantas vezes participei de encontros onde não havia conversa, apenas performance? Mulheres rindo alto para validar egos, reforçando estruturas que nos diminuem, fazendo pouco de outras mulheres.

Silêncios também são escolhas. E, muitas vezes, são escolhas políticas.

Amizade, política e escolha ética

Num mundo em que a violência contra a mulher cresce de forma alarmante, fingir neutralidade não é opção. Admirar figuras públicas que defendem posições contrárias à nossa luta por dignidade, respeito e autonomia não é apenas uma questão de gosto ou opinião — é uma escolha ética.

Não acredito em cancelamentos automáticos, mas também não acredito em silêncios cúmplices. Antes de encerrar uma amizade, acredito na tentativa honesta de diálogo.

Perguntar: por que você admira mulheres que nos colocam no lugar da submissão? Por que tratar nossa luta como exagero, loucura ou radicalismo?

Sou chamada de comunista com frequência. Cansa. Ignorância não é opinião — é ausência de conhecimento. E recusar-se a pensar, mesmo tendo acesso à informação, é uma escolha.

Antes de ir embora: a tentativa de diálogo

À minha amiga de infância, eu pergunto: tem certeza?

Essas curtidas, esses posicionamentos, não revelam medo de quebrar paradigmas? Medo de viver a própria verdade? Falta de coragem para existir com originalidade?

Se, depois dessa conversa, nada florescer, talvez seja hora de aceitar o fim. As amizades também têm ciclos. Encerrar não é fracasso — é honestidade.

Perdoe-se por isso. Você tentou.

O fim que não é fracasso

Quem escolhe a liberdade não volta atrás. Quem decide viver com autenticidade não consegue mais se submeter a jantares vazios, encontros estratégicos, eventos feitos para agradar egos masculinos ou sustentar aparências.

Essa é uma viagem sem bilhete de volta.

Liberdade não tem caminho de volta

Às amigas que ficaram pelo caminho: foi bom enquanto durou. Honro o que fomos. Mas vocês já não fazem parte do meu repertório afetivo.

Podemos nos cruzar com cordialidade, com educação, com distância. O que não posso mais é fingir presença onde já não existe troca.

Encerrar 2025 foi isso: compreender que a maior viagem de todas é interna, solitária e irreversível.

E, apesar do peso, nunca me senti tão inteira.

Nota ao final

Se este texto encontrou você em um momento de despedida, saiba: não é egoísmo escolher relações que não te diminuem. Não é frieza se afastar de quem não reconhece a sua dor. E não é radicalismo decidir não fingir mais.

Crescer dói. Perder pessoas dói. Mas permanecer em lugares onde não há escuta, empatia ou troca dói muito mais.

Que este texto seja um lembrete: a liberdade cobra um preço, mas a consciência paga melhor. E, uma vez iniciada essa viagem, não há retorno — apenas mais verdade.

Obrigada por ler até aqui. Seguimos.

Com açúcar e afeto

Escrevo para não me trair.

Tatiana Soares de Azevedo

Orientadora Jurídica
OAB-SP 174797

 

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